quinta-feira, 28 de agosto de 2008

conselhos pra uma vida













Tenho muito orgulho ao olhar pra trás e ver tudo aquilo que fui, que fiz, que construí. Hoje, sei que a infância é um período muito valioso da nossa vida, seja pela inocência, seja pelas descobertas. Também gosto de lembrar daquilo que aprontei outrora na adolescência. Essa seria mais uma fase de ouro na nossa vida. Enfim, se pudesse dar um conselho aos meus filhos seria para que eles vivessem cada dia intensamente, não desejando acelerar o tempo ou pular as fases.
De qualquer maneira, vou transcrever aqui o tipo de conselho que eu daria aos meus filhos. Muitos já devem conhecer, outros não. Recomendo ver o vídeo, é muito mais emocionante. Não é a primeira vez que posto esse texto, mas acho que ele resume tudo aquilo que deveríamos ouvir quando crianças.

“Se eu pudesse dar um conselho em relação ao futuro, diria: usem filtro solar. Os benefícios, a longo prazo, do uso do filtro solar foram cientificamente provados. Os demais consellhos que dou baseiam-se somente em minha própria experiência. Eis aqui um conselho: desfrute do poder e da beleza de sua juventude. Ah, esqueça, você só vai compreender esse poder e essa beleza quando já tiverem desaparecido. Mas, acredite em mim, dentro de vinte anos, você olhará suas fotos e compreenderá, de um jeito que não pode compreender agora, quantas oportunidades se abriram para você e quão fabuloso você era. Você não era tão gordo quanto imaginava. Não se preocupe com o futuro. Ou se preocupe, se quiser, sabendo que a preocupação é tão eficaz quanto tentar resolver uma equação de álgebra mascando chiclete. É quase certo que os problemas que realmente têm importância em sua vida são aqueles nunca passaram por sua mente, tipo aqueles que tomam conta de você às 4 da tarde em alguma terça-feira ociosa. Todos os dias faça alguma coisa assustadora. Cante. Não trate os sentimentos alheios de forma irresponsável e não tolere aqueles que agem de forma irresponsável em relação a você. Relaxe. Não perca tempo com a inveja. Algumas vezes você ganha, algumas vezes você perde. A corrida é longa e no final tem que contar só com você. Lembre-se dos elogios que recebe, esqueça os insultos [se conseguir fazer isso, me diga como]. Guarde suas cartas de amor, jogue fora seus velhos extratos bancários. Estique-se. Não tenha sentimento de culpa se não sabe muito bem o que quer da vida, as pessoas mais interessantes que eu conheço não tinham, aos 22 anos, nenhuma idéia do que fariam da vida. E algumas das mais interessantes de 40 anos que conheço ainda não sabem. Tome bastante cálcio, seja gentil com seus joelhos, você sentirá falta deles quando não funcionarem mais. Talvez você se case, talvez não. Talvez tenha filhos, talvez não. Talvez se divorcie aos 40, talvez dance uma valsinha engraçada quando fizer 75 anos de casamento. O que quer que faça, não se orgulhe e nem se critique demais. Todas as suas escolhas têm 50% de chance de dar certo, como as de todos os outros. Curta seu corpo da maneira que puder, não tenha medo dele ou do que as outras pessoas pensem dele, ele é seu maior instrumento. Dance, mesmo que o único lugar que você tenha para dançar seja sua sala de estar. Leia todas as direções, mesmo que você não as siga. Não leia revistas de beleza, a única coisa que elas fazem é fazer com que você se sinta como uma pessoa feia. Saiba entender os seus pais, você nunca sabe a falta que vai sentir deles. Seja legal com seus irmãos, eles são seu melhor vínculo com o passado e aqueles que, no futuro, provavelmente nunca te deixarão na mão. Entenda que amigos vêm e vão, mas que há um punhado precioso deles que você tem que guardar com carinho. Trabalhe duro para transpor os obstáculos geográficos e da vida, porque quanto mais você envelhece, mais vai precisar das pessoas que te conheceram na juventude. More em São Paulo, mas mude-se antes que a cidade transforme você em uma pessoa dura. More em Salvador, mas mude-se antes de se tornar uma pessoa mole demais. Viaje. Aceite certas verdades eternas: os preços sempre vão subir, os políticos são todos mulherengos e você também vai envelhecer. E quando envelhecer, vai fantasiar que quando era jovem os preços eram razoáveis, os políticos eram nobres de alma e as crianças respeitavam os mais velhos. Respeite as pessoas mais velhas. Não espere apoio de ninguém. Talvez você tenha uma aposentadoria, talvez tenha um marido rico. Mas, você nunca sabe quando um ou outro vai desaparecer. Não mexa muito em seu cabelo, senão quando tiver 40 anos vai ficar com a aparência de 85. Tenha cuidado com as pessoas que lhe dão conselhos, mas seja paciente com elas. Conselho é uma forma de nostalgia. Dar conselho é uma forma de resgatar o passado do lixo, limpá-lo, esconder as partes feias e reciclá-lo por um preço maior do que realmente vale. Mas, acredite quando eu falo do filtro solar”.
Para ver o filme, clique aqui.  

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

o castelinho do jardim são bento












Lá perto de casa existe um lugar que todos chamamos de “castelinho”. Quando eu era pequena ouvia diversas histórias sobre aquele lugar. Diziam que algumas pessoas desapareciam quando passavam em frente ao portão. E essas pessoas eram torturadas lá dentro, mas quando voltavam pra casa, não se lembravam de nada já que haviam sofrido uma lavagem cerebral.
Diziam também que coisas estranhas aconteciam naquela rua. Que os carros andavam pra trás quando passavam em frente ao castelinho e que muitas pessoas ficavam cegas se olhassem muito tempo pra lá.
Obviamente, o castelinho era muito estranho e realmente dava medo espiá-lo, principalmente à noite. Fato que atraía diversos curiosos pro local. Ainda quando eu era pequena, fomos de carro com minha mãe e minha madrinha xeretar o tal castelo.
Ficamos um tempão na entrada. E bem no portão havia uma santa pisando numa cobra. Aí já viu... as histórias eram as mais macabras. Nesse dia vimos um carro parar e desceram várias pessoas esquisitas, vestidas com túnicas pretas até o pé. Eram todos homens e como o carro também era bem sombrio, minha madrinha disse que ali deveriam morar vários vampiros. Evitei voltar ali por vários anos, não gostava de passar nem perto. Quando adolescente, voltei com uns amigos, mas sentimos tanto medo que não conseguimos ficar por muito tempo vigiando.
Anos mais tarde, já na faculdade, um grupo da sala fez um trabalho com o pessoal do castelinho. Na verdade, eles são mórmons e não há nada demais lá dentro. Eu olhei todas as fotos atentamente, mal podia acreditar. Lá dentro é muito bonito. Eles têm um jardim de pedras preciosas, dá pra acreditar? E as pessoas se vestem mesmo daquele jeito, mas é coisa da religião deles, nada mais.
O mistério do castelinho estava solucionado. Não tenho mais medo e não acredito naquelas histórias absurdas. Hoje dou risada. Mas que na época era assustador, ah isso era. E confesso que até hoje dá um certo frio na espinha passar lá durante à noite. Mesmo não acreditando.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

saudade não se define, nem se explica


Saudade é uma espécie de lembrança nostálgica, lembrança carinhosa de um bem especial que está ausente, acompanhado de um desejo de revê-lo ou possuí-lo. Uma única palavra para designar todas as mudanças desse sentimento é quase exclusividade do vocabulário da língua portuguesa; há mesmo um mito de que seja intraduzível.

Oh! Que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras,
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias
Do despontar da existência!
- Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é - lago sereno,
O céu - um manto azulado,
O mundo - um sonho dourado,
A vida - um hino d'amor!

Que auroras, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d'estrelas,
A terra de aromas cheia,
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!

Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!

Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberta o peito,
- Pés descalços, braços nus -
Correndo pelas campinas
À roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!

Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo,
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!

Meus oito anos – Casimiro de Abreu

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

meu 1º namorado não foi meu 1º amor













Meu primeiro beijo aconteceu quando eu tinha uns 7 anos. Precoce? Talvez. Não teve língua, nem muita excitação. Foi um beijinho-selinho no meu namoradinho da época. Não vou dizer que foi sem maldade, até porque não existe beijo na boca sem maldade. Mas é que eu não me lembro muito bem. Só me lembro que estava no pré e falava pra todo mundo que o Leo (sim, eu me lembro do nome dele) era meu namorado.
E eu fazia questão de andar pra cima e pra baixo com ele de mãos dadas. Estranho, logo numa época da vida em que meninos e meninas se detestam, eu tinha namorado. Vê se pode. E eu me lembro dele. Era feinho, tadinho. Era mais baixo que eu (então devia ser anão o coitado), era branco-leite e loiro (características que dispenso totalmente nos dias de hoje).
Enfim, vai entender. Eu não entendo, apenas guardo na memória. 

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

cineminha


O primeiro filme que vi no cinema foi Meu 1º Amor. Não me lembro bem quando e nem qual o cinema, mas sei que foi em algum ali da Paulista. Me lembro que naquela época circulava por ali um ônibus especial, estilo londrino, dois andares e tudo. Não sei bem porque, mas tinha. Não sei se era alguma comemoração ou coisa do tipo. Só me lembro de ter pego esse ônibus, rodado a Paulista e visto o meu primeiro filme no cinema.
Inesquecível como um primeiro amor.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

meu 1º emprego


Quando estamos no colégio, queremos ter as melhores roupas, os melhores tênis e as coisas que estão na moda. Queremos encher nossas tardes com atividades como inglês e academia. Passear no shopping, comprar aquela calça legal e pegar um cineminha. Quando se é adolescente tem que estar por cima. Se você não segue as tendências, é um forte candidato à exclusão. Infelizmente é assim.
Para alguns a adolescência passa despercebida, já pra outros pode ser um verdadeiro inferno. Pra mim foi uma das melhores épocas da minha vida, mas confesso, não foi tão fácil assim.
Estar na moda, sair com a galera, ter a tarde toda cheia de compromissos demandava dinheiro. E minha família tinha muitas outras prioridades naquela época. Tanto foi assim que minha mãe e minha avó acharam que já era hora de eu trabalhar.
E foi assim que arrumei meu primeiro emprego aos 15 anos, numa locadora perto de casa. O emprego era muito legal. Pra ser sincera, um dos melhores que já tive. Uma porque eu sempre devorei filmes e sabia o elenco, a história, a trilha, o diretor e até o nome original de cor. Eu sempre fui cinéfila, então era moleza.
Era bem bacana trabalhar lá. Éramos um grupo de adolescentes, meninas muito legais. A locadora era a melhor do bairro e rivalizava com outra que ficava lá perto. Nós sempre estávamos lotados, não tinha dia de descanso. Nem durante a semana, já que no andar de cima funcionava uma game-house. Os garotos iam lá pra jogar e pra paquerar a gente. Era o maior barato.
Eu realmente dei meu sangue naquela locadora. Adorava trabalhar lá. Mesmo sendo puxado, já que saía da escola, passava em casa pro almoço e um banho rápido e já ia trabalhar. Saía todos os dias depois das 10 da noite e perdia o sábado todinho lá, mas eu realmente gostava.
Ganhava uma merreca, mas meu salário dava pra tudo o que eu quisesse comprar. E eu podia ir onde quisesse, comprar o que quisesse e não tinha que dar satisfação. Se uma bolsa custasse mil reais, eu podia comprar.
Finalmente eu estava por cima. E meus amigos me respeitavam, achavam bacana esse negócio de trabalhar. Mas ninguém na minha escola trabalhava, só eu. Eu achava o máximo, realmente achava. Mas confesso que às vezes eu só queria ficar em casa, de bobeira, sem fazer nada.
Depois daquele ano, as coisas nunca mais foram as mesmas. A partir daí, eu nunca mais deixei de trabalhar.
Hoje, acho que poderia ter esperado um pouco mais. Aproveitado os últimos anos do colégio sem trabalhar. Curtir a vida, as tardes no shopping ou um filme na tv. Mesmo sem grana pra nada, talvez eu devesse ter esperado mais um pouco.
Não me arrependo, inclusive tenho ótimas lembranças desse emprego. Só acho que comecei cedo demais. Sei lá, a vida já é tão cheia de responsabilidades, por que não adiá-las um pouco mais, não é mesmo?

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

eu e os chocolates


Desde sempre sou chocólatra e isso nunca foi tão problema assim. Graças a Deus e à genética, tenho a pele boa, nunca tive problemas com espinha por comer chocolate demais e também nunca tive problemas com a balança por conta disso. Mas eu era viciada mesmo. Hoje, sou mais comedida, digamos assim.
Lá em casa, tradicionalmente, montávamos árvore de natal, presépio e etc. E me lembro que certa vez minha mãe comprou penduricalhos de chocolate pra colocar na árvore. E me lembro muito bem dela dizendo não é pra comer antes do natal, viu?
Claro. Sentença impossível de se cumprir. E aí que a criança esperta aqui, na hora de espalhar os bichinhos pela árvore, se lembrou de colocar muito mais atrás dela porque seriam os de trás que eu iria comer escondido. E assim foi. Toda vez que inventávamos de colocar enfeites de chocolate na árvore, eu sempre ia lá e colocava um monte atrás e assim ia comendo um por um até o natal. E de quebra, de vez em quando, minha mãe dizia vai lá, pega um chocolate já que você se comportou tão bem e não comeu nenhum ainda. Tá, eu sei que é maldade, mas nem era tão maldade assim vai.
Houve épocas piores. Minha mãe comprava caixas de chocolates e mandava minha vó esconder. Ela só podia me dar uma barrinha por dia. Óbvio que euzinha descobri o esconderijo e sempre depois que ela me dava a barrinha de direito, eu já tinha outra no bolso pra comer mais tarde. Ah, me perdoem, era o vício.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

minha 1ª formatura


Em 1989, fui escolhida pra ler uma pequena homenagem aos professores durante nossa formatura pré-escolar. Minha madrinha me fez decorar o texto pra que eu não fizesse feio no dia. Eu decorei tão bem, mas tão bem, que quase 20 anos depois, ainda me lembro de tudo.
A primeira parte do texto foi lido por uma outra coleguinha de classe e a parte dela eu não me lembro. Não achei nada no google, então isso que está aí abaixo é fruto apenas [e tão somente] da minha boa memória.

“Ensinai-nos, ó Mestre amado, a descobrir o roteiro
Para buscarmos primeiro aprender a trabalhar
Concede-nos bons amigos a cada dia e a cada hora
A bênção de estar contigo é a benção de nosso lar.”

quarta-feira, 13 de agosto de 2008












Se essa rua
Se essa rua fosse minha
Eu mandava
Eu mandava ladrilhar
Com pedrinhas
Com pedrinhas de brilhante
Só pra ver
Só pra ver meu amor passar

Nessa rua
Nessa rua tem um bosque
Que se chama
Que se chama solidão
Dentro dele
Dentro dele mora um anjo
Que roubou
Que roubou meu coração

Se eu roubei
Se eu roubei teu coração
Tu roubaste
Tu roubaste o meu também
Se eu roubei
Se eu roubei teu coração
Foi porque
Só porque te quero bem

terça-feira, 12 de agosto de 2008

coelhinho da páscoa que trazes pra mim?


Era domingo de Páscoa. Almoço em família interminável, gente à mesa falando, falando, falando. E nós, as crianças, loucas pra abrir os ovos de chocolate. Mas aquele dia foi diferente. Minha mãe fez diferente.
Ela fez várias pegadas de coelho pela casa e nós tínhamos que segui-las pra descobrir onde estavam os ovos. Cada pegada que seguíamos dava num ninho que tinha uma pista. E assim foi o domingo inteiro.
Eu nem queria mais achar os ovos. Eu queria que a brincadeira não tivesse fim. Embora eu soubesse que tinha sido ela, adorei fantasiar com meus primos mais novos a hipótese do coelhinho ter passado por lá e nos pregado essa peça. Muito embora os coelhos não botem ovos e nem saibam escrever.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

explicações


- por que mulher menstrua?
- ah, porque todo mês o corpo da mulher se prepara pra receber um bebê e quando ele não vem, ela precisa menstruar...
- por quê?
- ah, porque lá na barriga da mulher tem um passarinho que vai montando um ninho pro bebê poder ficar até nascer. Aí se o bebê não vem, o passarinho desfaz todo o ninho e libera na forma de menstruação. É assim que ele limpa a barriga da mulher pra poder fazer um novo ninho limpinho pro bebê que vai chegar.
- hummmm...

Juro por Deus que durante vários tempos (não sei quanto) eu fiquei tentando imaginar como é que um passarinho poderia viver dentro da barriga de alguém. Mas até hoje me lembro dessa explicação. Acho que era a mais plausível pra uma criança de 6/7 anos. Foi minha mãe que me disse e eu acho simplesmente uma gracinha essa historinha do passarinho. Nunca vou esquecer.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

o que eu fui












Eu adorava brincar de boneca e costumava usar os utensílios de casa pra fazer meu aparelho de cozinha. Pires, xícaras, panelinhas, cumbuquinhas, tudo entrava na dança, quer dizer, na brincadeira. No inverno, eu tinha medo que as bonecas passassem frio, então cobria todas. As prediletas dormiam comigo na cama, mas antes eu explicava pras outras não ficarem com ciúme. Sempre tive a sensação que a noite elas ganhavam vida e não queria nenhuma delas chateada comigo.
Eu colocava as sobras de massa de bolo em forminhas e as deixava crescer no sol. Ficava a tarde toda vigiando meu bolinho crescer só com a luz do sol e tentava protegê-lo das formigas que vinham pelo quintal.
Eu comia gelo de chuva e achava a coisa mais fantástica do mundo. Eu pulava corda na rua e participava de concursos de beleza com direito a troféu e tudo. Adorava brincar de esconde-esconde pelas ruas da vizinhança. Andava de bicicleta e me sentia em total liberdade quando fazia isso. Era como se eu pudesse alcançar o mundo.
Eu achava que tinha super poderes porque conseguia subir nas paredes e vivia levando bronca por encher as paredes de pezinhos pretos. Eu fazia meus primos jogarem seus brinquedos no telhado só pra depois vê-los chorar (era maldade, mas fazer o quê, criança é um bicho maldoso).
Adorava ver filmes legendados mesmo quando não sabia ler. Fazia alguém ler pra mim e até hoje não assisto filme dublado de jeito nenhum. Gostava de brincadeiras de meninos também, principalmente polícia e bandido ou qualquer coisa com espadas. Eu era sempre a heroína ou a policial que prendia o ladrão.
Já fingi várias vezes estar doente só pra não ir pra escola, principalmente em dias frios ou de chuva. Já troquei de prato com meu avô quando a comida era ruim só pra todos pensarem que eu já tinha comido tudo. Ele era meu comparsa, nunca me entregava e ainda dava uma piscadinha.
Adorava ir à feira e comprar roupinhas pras minhas barbies e de quebra ainda comprar aquele treco estranho de plástico com suco horrível dentro. Hoje eu morro de nojo, mas naquela época comprava de baciada.
Domingo era dia de nhoque ou lasanha, macarronada, polenta. Não sei, só sei que era dia de se empanturrar de comer tanta comida gostosa. Depois assistir Silvio Santos na tv até tardinha da noite.
Amava lavar os tapetes de casa no quintal, eu podia deitar e rolar – literalmente – nos tapetes molhados. Era um barato escorregar no tapete todo ensaboado. Uma diversão à parte.
Ir à escola, ficar de bobeira, olhar pro céu sem pretensão. Acordar tarde quando dava e se não desse, arrumar um jeito. Ver tv à tarde, comer pipoca, tomar sorvete. Ter todo o cuidado do mundo e não se preocupar com mais nada. Viver num mundo paralelo em que as regras são feitas por mim e não há tanta maldade. Ser heroína na minha fantasia, a rainha do meu castelo.
Eu tive uma infância feliz e digo isso de boca cheia.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

o binóculo


Minha mãe tinha um binóculo super estranho. Ele era preto com algumas partes em metal e fechava, virando uma espécie de carteira. Bem fininho, ele cabia no bolso. E fechado, ninguém sabia o que era.
Ela não gostava que mexesse no tal binóculo, mas eu sempre pegava e depois devolvia sem ela perceber. Ou talvez ela até percebesse. Enfim.
Eu gostava de deitar no quintal e ficar olhando as estrelas, eu olhava os aviões, as pipas, as nuvens, balões. Qualquer coisa que passasse naquele meu céu de quintal.
Até que eu comecei a subir na laje pra xeretar a casa dos vizinhos. E um dia me deparei com um homem que ficava na esquina da rua de cima, todo dia às 6 horas. Em pé, amparado no poste. E lá ficava por uma meia hora e às vezes até mais.
Eu enfiei na cabeça que ele era algum seqüestrador, assassino, ladrão e que ele ficava ali pra escolher suas vítimas. E todo dia eu subia na laje pra observá-lo. Eu cheguei até a ter um caderno de anotações com todos os movimentos dele.
Anotava o dia e o horário e qualquer movimento estranho. Eu me escondia bem pra ele não perceber que estava sendo vigiado. Eu tinha certeza que um dia iria flagrá-lo. E aí a polícia e a tv seriam gratas a mim por ter todos os passos do cara arquivados.
É óbvio que nunca aconteceu nada. Ele devia ser só um cara sem ter o que fazer. Um dia ele sumiu. Nunca mais apareceu. Eu sempre fantasiava sobre ele, achava que tinha me visto e acabou mudando de ponto, seqüestrando alguém.
Sei lá. Vai entender cabeça de criança né?

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

lembranças têm cheiro de saudade


Às vezes, tenho mania de fechar os olhos quando sinto o cheiro da infância. E por alguns instantes consigo voltar e parar no tempo. Como quando sinto o cheiro do asfalto molhado e me lembro de quando assistia a chuva cair da janela da sala, esperando que cessasse logo pra que eu pudesse brincar de novo na rua.
Quando sinto o cheiro de rabanada, apesar de detestá-la, me lembro das manhãs de natal lá na casa da minha vó. Em que o cheiro invadia meu quarto, invadia a casa e eu sabia, era dia de natal.
O cheiro da pizza que ela fazia e que tanto me lembra sexta-feira em família. Ou do café fresco que ela adoçava toda manhã enquanto ouvia as notícias no rádio, bem baixinho. O cheiro de roupa no varal e toda travessura que eu fazia correndo por entre os lençóis estendidos.
Ou o cheiro forte da dama-da-noite da casa da esquina que anunciava o começo da noite e com ela a primavera e a chegada do meu avô em casa.
Cheiro do sabonete que usei no meu primeiro dia de colegial, cheiro dos cabelos lavados num dia de sol. Cheiro das pessoas, das brincadeiras, do tênis sujo depois da escola.
Cheiro de cachorro molhado que me lembra os banhos de mangueira no quintal ou o cheiro do churrasco me lembrando que era domingo. Cheiro de bolo crescendo no fogão de casa e que eu sempre dava um jeito de abrir um pouquinho (pra não murchar) e xeretar pra ver se estava bom.
Cheiro de terra que me leva de volta para um pequeno caminho que costumávamos tomar pra chegar mais rápido à padaria. Cheiro de roupa de cama trocada e que minha mãe costumava jogar um pouco de talco pra deixar ainda mais gostoso. As roupas passadas, as gavetas cheias de sachês perfumados. O cheiro da tinta que pintávamos o chão do quintal. O cheiro do laquê da minha vô.
Eu reconheço alguns desses momentos ainda. E confesso que por alguns minutos eu consigo realmente voltar no tempo.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

quando eu era professora


Então. Eu queria ser professora. Desde sempre, mas desisti devido – digamos – às condições financeiras. Mas no mundo de fantasia da minha infância, eu era professora. E, diga-se de passagem, desempenhava o papel com muito louvor.
Tinha um espaço na lavanderia de casa reservado pra minha escolhinha. E lá tinha os bancos que eu usava de mesa pros meus alunos (cerca de umas 10 bonecas), tinha vários artigos escolares pendurados na parede, uma lousa enorme que meu vô fez pra mim, armários cheios de livros, não só de histórias infantis, mas de pesquisa, história, ciência.
Eu tinha meu estojo de giz e apagador e aquilo me tornava ainda mais professorinha. Cada boneca minha tinha um caderno e eu fazia e refazia as lições de todos. Tinha o kit carimbo pra poder vistar os cadernos dos meus “alunos”. Alguns, eu fazia garrancho, fazia coisa errada só pra poder carimbar um “precisa melhorar”.
Não era à toa que eu sempre era a primeira da turma na escola. É claro, aos 7 eu já sabia até por onde o bebê saía e quem tinha descoberto a América. Sabia tudo sobre a era dos Dinossauros e devorava os livros que tinha em casa. E sabia tudo sobre índios também.
Mas minhas aulas não eram comuns. Eu fazia brincadeira no quintal, dava educação física, fazia trabalhos manuais e até artesanato. Tudo em quantidade, afinal, era preciso representar os “alunos”.
O dia em que eu me senti professora de verdade, foi quando eu ganhei um diário de classe. Eu preenchia a lápis pra poder usar infinitamente. Afinal, era um só. Fazia chamada, anotava as notas, os problemas. Era exemplar.
Depois ganhei uma máquina de escrever. Sim. Máquina de escrever. E desde então aprendi a “datilografar” e por isso também, hoje, não olho no teclado e consigo digitar com todos os dedos. Enfim, com a minha super máquina, minha escola se tornou ainda mais legal. Isso porque eu fazia as provas dos alunos na máquina e ficava muito mais profissional, verdadeiro, original.
Caneta vermelha andava sempre comigo e eu sei desenhar um ‘certo’ com perfeição. Eu adorava isso. Ê bons tempos que não voltam mais.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

coisa de mãe













Como minha mãe trabalhava fora, não tinha muito tempo pra ficar comigo à noite. Então, me lembro de uma época em que ela instituiu que cada dia da semana seria dedicado a alguma brincadeira diferente e curta. Algo para que pudéssemos passar o tempo juntas.
Eu não me lembro bem que dia era do quê, nem me lembro de todas as brincadeiras. Só me lembro das minhas 2 favoritas: o dia do Topo Gigio e o dia da maquiagem.
O Topo Gigio era um ratinho que tinha um programa infantil na tv. E na nossa brincadeira, minha mãe era o Topo Gigio. Com o boneco que eu tinha, simples assim, ela fazia um teatrinho exclusivo pra mim. Cada dia era uma história diferente e todinha pra mim. Simplesmente era o melhor que podia me acontecer naquelas noites.
E o dia da maquiagem era o dia em que eu podia maquiar minha mãe do jeito que eu queria. Meu sonho se realizava quando eu pegava aquela caixa imensa, cheia de coisas estranhas, blush, sombra, lápis e batons de mil cores. Adorava tudo aquilo. E o melhor era que eu podia fazer qualquer coisa na minha mãe. Pintar a cara dela de vermelho, fazer bolas azuis, passar sombra no nariz, fazer o que eu bem entendesse. E depois, na maior paciência do mundo, ela ia pro banheiro, se olhava no espelho, fazia algum elogio à minha maluca obra de arte e depois limpava todo o rosto.
Aquelas noites foram muito especiais pra mim.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

agosto de recordações













Dizem que agosto é um mês de azar, do cachorro louco, mês que noiva não casa. Eu não sei. Só sei que nunca gostei de agosto. Talvez porque seja um mês sem feriados (o que nesse ano nem faz tanta diferença assim), ou por ser o mês que vem depois das férias ou porque pra mim agosto sempre pareceu um mês interminável. Ou talvez por causa daquela brincadeira sem graça em que algum idiota responde agosto de deus.
Então, para que meu agosto não seja um mês tão ruim e nem tão infindável quanto possa parecer, resolvi criar posts com sabor especial para ele. Cada post de agosto será sobre alguma lembrança minha. Vou voltar no tempo e com isso espero poder trazer boas recordações à tona.

Boa viagem para nós!